Nascido em 16 de novembro de 1936, no município de São Miguel dos Campos, em Alagoas, Milton Bezerra dos Santos, conhecido artisticamente como Beija-Flor, é um dos importantes representantes da tradição da cantoria popular nordestina e da embolada de coco no Vale do Paraíba paulista. Sua trajetória artística constitui um elo vivo entre as manifestações culturais do Nordeste brasileiro e os espaços de convivência popular onde a oralidade, a música e a memória coletiva continuam desempenhando papel fundamental.
Desde muito cedo, Beija-Flor demonstrou aptidão para a música e para a arte da improvisação. Iniciou sua atividade artística ainda criança, por volta de 1941, quando tinha apenas cinco anos de idade. O contato com os repentistas que se apresentavam nas feiras livres de sua região despertou nele uma profunda admiração pela cantoria. Frequentando esses espaços ao lado da mãe, observava atentamente os desafios poéticos entre os cantadores, aprendendo por imitação os primeiros versos e desenvolvendo a habilidade que mais tarde se tornaria sua profissão e missão de vida.
Aos sete anos de idade, aprendeu a tocar pandeiro e passou a se apresentar publicamente. Com talento natural para o improviso e grande capacidade de memorização, consolidou-se como repentista e embolador, utilizando a música como instrumento de comunicação popular. Em suas apresentações, narra acontecimentos do cotidiano, episódios históricos, temas científicos e aspectos da cultura brasileira, sempre em linguagem acessível ao público. Seu trabalho tem como característica principal a valorização da tradição oral, permitindo que pessoas de diferentes níveis de escolaridade compreendam e se identifiquem com as histórias cantadas.
O próprio artista define sua missão cultural ao afirmar:
“Sou um repentista e cantador popular do Nordeste. O meu principal instrumento de trabalho é o pandeiro. Digo pelo canto improvisado e memorizado as histórias dos homens, da ciência e da vida cotidiana. Os analfabetos e semi-analfabetos têm o entendimento do que canto até mesmo nas feiras livres. O que faço é para deixar na mente desse povo brasileiro um pouco de nossas raízes, de nossa música, enfim de nossa história, porque povo sem história é povo sem passado.”
Na década de 1970, Beija-Flor mudou-se para a cidade de Jacareí, interior de São Paulo, onde continuou exercendo sua atividade artística e difundindo a cultura popular nordestina. Ao longo dos anos, tornou-se uma referência local da cantoria improvisada, participando de apresentações, encontros culturais, festivais e atividades voltadas à preservação das tradições populares brasileiras.
Sua arte está ligada à rica tradição do repente, também conhecido como cantoria, manifestação cultural baseada na criação poética improvisada. No caso de Beija-Flor, o pandeiro ocupa papel central em suas apresentações, aproximando sua prática artística do coco de embolada, gênero caracterizado pela agilidade rítmica, pelo humor, pela criatividade verbal e pela combinação entre versos improvisados e estrofes tradicionais. Essa forma de expressão constitui um importante patrimônio imaterial da cultura nordestina, transmitido de geração em geração por meio da oralidade.
Reconhecendo sua contribuição para a preservação e difusão da cultura popular brasileira, Beija-Flor recebeu, em 2011, o título de Mestre Cultura Viva, distinção concedida a personalidades detentoras de saberes tradicionais e cuja trajetória contribui significativamente para a manutenção das manifestações culturais de suas comunidades.
Com uma vida dedicada à música popular e à transmissão dos conhecimentos da tradição oral, Milton Bezerra dos Santos permanece como exemplo de resistência cultural, guardião da memória coletiva e representante legítimo da riqueza artística do povo nordestino. Sua trajetória demonstra como a cultura popular é capaz de atravessar fronteiras geográficas e gerações, mantendo vivas as raízes, os costumes e as histórias que compõem a identidade brasileira.