Reconhecido como Mestre Cultura Viva em 2020, Raimundo de Moraes Silva, carinhosamente conhecido como Mestre Raimundinho, é uma das principais referências na preservação e difusão da Capoeira Angola e do Samba de Roda em Jacareí. Sua trajetória é marcada pelo compromisso com a valorização da cultura afro-brasileira, pela formação de novas gerações de praticantes e pelo uso da arte como instrumento de educação, inclusão social e fortalecimento da cidadania.
Seu primeiro contato com a capoeira aconteceu aos 18 anos de idade, período em que passou a conhecer mais profundamente essa manifestação cultural que reúne luta, dança, música, filosofia e ancestralidade. Motivado pelo interesse crescente pela prática, iniciou sua formação sob a orientação do professor Valter, prosseguindo posteriormente seus estudos com o professor Edson e, mais tarde, com o mestre Paulo dos Anjos, importante referência em sua trajetória de aprendizado.
Ao longo dos anos, desenvolveu não apenas habilidades técnicas, mas também uma compreensão ampla dos valores culturais e históricos presentes na capoeira. Esse processo de formação contribuiu para consolidar sua atuação como educador popular e transmissor de saberes tradicionais.
Em 1983, alcançou a graduação de professor de capoeira e iniciou um importante trabalho de difusão cultural com a criação da Academia de Capoeira Filhos do Sol, localizada no bairro Vila Zezé, em Jacareí. O espaço tornou-se um centro de formação para crianças, jovens e adultos interessados na prática da capoeira e na valorização da cultura brasileira.
A partir das atividades desenvolvidas na academia, Mestre Raimundinho ampliou sua atuação para além da capoeira, passando também a difundir o Samba de Roda, manifestação cultural tradicional de matriz afro-brasileira. Por meio de apresentações, cursos, oficinas e palestras, promoveu o contato de diferentes públicos com essas expressões culturais, contribuindo para sua preservação e fortalecimento.
Grande parte de seu trabalho foi direcionada às crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. Utilizando a capoeira e o samba de roda como ferramentas educativas, buscou transmitir valores fundamentais para a convivência em sociedade, como disciplina, respeito, solidariedade, responsabilidade, amor-próprio e respeito ao próximo.
Sua atuação sempre esteve fundamentada na tradição oral, característica marcante das manifestações populares afro-brasileiras. Os conhecimentos são transmitidos por meio da convivência, da observação, da escuta e da prática cotidiana, preservando uma forma ancestral de ensino baseada na experiência compartilhada entre mestres e aprendizes.
Além de sua atuação como educador e mestre, Raimundo de Moraes Silva também desempenhou importante papel na organização da capoeira no município. Tornou-se o primeiro presidente da Liga Jacareiense de Capoeira, contribuindo para a articulação entre grupos, mestres e praticantes, fortalecendo institucionalmente a presença da capoeira em Jacareí.
A partir de 2020, passou a dedicar-se de forma ainda mais intensa à Capoeira Angola, segmento considerado por muitos praticantes como uma das expressões mais tradicionais da capoeira. Caracterizada por movimentos mais ritualizados, pela forte presença da musicalidade e pela valorização da ancestralidade, a Capoeira Angola preserva elementos históricos fundamentais da formação cultural afro-brasileira.
A Capoeira Angola representa muito mais do que uma prática corporal. Ela reúne aspectos de luta, dança, jogo, música, expressão artística e filosofia de vida, refletindo a resistência cultural dos povos africanos e seus descendentes no Brasil. Sua história está diretamente ligada à preservação de conhecimentos transmitidos ao longo de séculos por meio da oralidade e da convivência comunitária.
Da mesma forma, o Samba de Roda ocupa lugar de destaque entre as manifestações culturais brasileiras de origem africana. Por meio da música, da dança e da participação coletiva, essa tradição fortalece vínculos comunitários e preserva importantes elementos da memória cultural do país.
A trajetória de Mestre Raimundinho demonstra a relevância dos mestres populares como guardiões de conhecimentos tradicionais e agentes de transformação social. Sua dedicação à cultura afro-brasileira contribuiu para a formação de inúmeras pessoas e para a preservação de práticas que constituem parte fundamental do patrimônio cultural brasileiro.
Em reconhecimento à sua contribuição para a cultura popular e para a transmissão dos saberes tradicionais, recebeu em 2020 o título de Mestre Cultura Viva, honraria destinada a personalidades que dedicam suas vidas à preservação da memória, da identidade e das expressões culturais de suas comunidades.
Seu legado permanece vivo nos alunos que formou, nos projetos que desenvolveu e na continuidade da Capoeira Angola e do Samba de Roda como manifestações de resistência, educação e valorização da cultura brasileira.